A Delirium abraça e coloca coração e crença na qualidade da arte literária, especialmente aquela feita em língua portuguesa, nosso lindo idioma. Nesta página, abrimos espaços para mini biografias e um pedacinho da arte (publicada de modo delirante) dos nossos autores.

Que tal conhecê-los? Clique nas imagens para mais detalhes de cada autor.

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Quero voltar [Encontros & Reencontros]

Aquela senhora, coitada, estava ficando caduca, a pobrezinha. Verdade seja dita, já estava mesmo na hora. Afinal, quantos anos tinha? Cem? Duzentos? Vai saber, muitos. É, talvez estivesse mesmo na hora, ainda assim, pobrezinha… Ela teimava porque teimava: — Quero voltar. Não era um pedido ilegítimo, claro. Alguns parentes até o encararam com otimismo: vai ver está se aprontando para a morte (já estava em dívida com o prazo). Afinal, se queria mesmo voltar, só poderia ser para a antiga casa da sua família, onde passou a infância. Mas a forma como insistia. Falava dia e noite: — Quero voltar. Quero voltar. Enchia os tímpanos alheios de tanto querer voltar. E o fazia enquanto se devotava a acariciar seu colar de safira — uma joia da família.

Bem, seu neto mais novo, que devia ter por volta dos dez, observava: — Acho que a vovó está dizendo: quero amar. Ninguém o levava a sério, afinal, eram vinte contra meio… meio, porque criança não valia como inteiro. De qualquer modo, por via das dúvidas, chamaram o primo da nora de um dos filhos — rapaz prestes a se formar em fonoaudiologia — para dar o seu parecer: infelizmente, ele inventou de propor uma terceira hipótese — Quero voar — e seu prestígio perante o resto da família acabou.

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Assim começa o conto Quero voltar, escrito por Brenda Bernsau, para a antologia Encontros & Reencontros.


Lar [Encontros & Reencontros]

Fuga. Esconderijo. Segurança. Se eu precisasse defini-lo em algumas poucas palavras, certamente essas seriam as escolhidas, com todo o significado existente em cada uma delas.

Ele sempre foi o tipo de pessoa que, mesmo tão jovem, parecia capaz de me proteger da ruína do mundo, quase como se fosse meu escudo, minha muralha, meu altar. É claro que, lá atrás, eu não tinha maturidade suficiente para entender a razão de sempre voltar para onde ele me esperava, mas hoje compreendo muito bem. Quando tudo dava errado, dentro ou fora de mim, ele sabia exatamente como me confortar e me fazer rir.

Na época, meu palpite a respeito do motivo pelo qual funcionávamos tão bem juntos consistia em uma profunda crença sobre sermos almas gêmeas. Hoje, acho isso uma grande besteira, por óbvio, mas admito ter rememorado de imediato tal convicção quando finalmente voltei a pensar nele.

Vinte anos depois.

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— Seu primeiro dia de aula também foi ruim? — a primeira pergunta que Thiago me dirigiu, quando tínhamos apenas sete anos, era tão despretensiosa, que eu jamais poderia ter imaginado a profundidade do sentimento que desenvolveríamos um pelo outro a partir dela.

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Assim começa o conto Lar, escrito por Camila Pelegrini, para a antologia Encontros & Reencontros.


Uma cançao de liberdade [Sereias: Encantos & Perigos]

Um trovão cortou o céu da vila. Lisha abriu um dos olhos e tentou enxergar em meio à escuridão que ia e voltava conforme re­lâmpagos clareavam a cabana onde descansava. Seus olhos negros e amendoados fitaram a mãe e o irmão mais novo que dormiam tranquilamente no outro lado do pequeno cômodo. Um som repetitivo a fez abrir o outro olho. Ela sentou sobre a esteira de palha. Seu olhar se arrastou até o outro lado da cabana de barro, onde a imagem de um loa, divindade cultuada pelo seu povo, encarava-lhe petrificada.

Lisha analisou a estátua, a chuva havia achado um caminho entre as palhas que cobriam o teto e agora caía preguiçosamente sobre a imagem. Ela acompanhou uma das gotas cair silenciosa e escorrer pela face esculpida, dan­do a impressão que o deus vodu estava chorando.

Outro trovão reclamou no céu, ainda mais assusta­dor. O irmão de apenas cinco anos resmungou ao lado da mãe por um instante. A criança sentou e coçou seus olhos pequenos, olhou ao redor e levou um susto quando um novo relâmpago iluminou a irmã. Fez cara de choro, mas Lisha ouviu um novo som lá fora e colocou um dedo sobre os lábios, pedindo para que o menino ficasse quieto.

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Assim começa o conto Uma canção de liberdade, escrito por Carol Camargo, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


Imersão do medo [Sereias: Encantos & Perigos]

Novamente o mesmo pesadelo ou um pare­cido, uma voz feminina, rouca e camuflada por uma névoa, dizia: — Jogue-o ao mar!

Acordei assustada e comecei a lembrar das histórias sobre criaturas estranhas e inteligentes habitando os ma­res, que surgiram em uma data a qual nem o mais sábio in­divíduo poderia dizer. Elas sempre apareciam e eram esque­cidas com o passar do tempo, assim uma nova versão to­mava o lugar da antiga, que se transformava em um mito, e isso se sucedia.

Décadas atrás, a tripulação que partia para suas ativi­dades em mar aberto sempre voltava à terra com menos integrantes. Os que restavam não sabiam dizer o que foi feito dos companheiros, só repetir diversas vezes o encanto das criaturas, palavras cantaroladas sem nexo, e, em poucos dias, definhavam sem comer, beber e dormir.

Não restaram sobreviventes, exceto a última vítima: meu avô. Ele nomeou as criaturas como “sereias”, e o que aconteceu consigo é um mistério. De fato, há 63 anos isso já havia se tornado um mito. Meu avô, um belo jovem na época, voltou à beira da loucura de sua viagem, no entanto, de alguma maneira, sobreviveu e recuperou a sanidade.

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Assim começa o conto Imersão do medo, escrito por Carol Oliveira, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


As férias de Elora [Encontros & Reencontros]

Lembro que era um dia de sol magnífico do tipo que dá vontade de correr pelos campos sentindo o perfume das flores, no entanto fiquei enfurnada em uma pequena igreja com todos os ventiladores de teto ligados devido ao calor abafado. Usava um vestido longo de manga única em tom pastel decorado com minúsculas pedrinhas de strass na cintura. Foi uma pequena fortuna, mas valeu todo o investimento.

As camélias, flores preferidas da noiva, enfeitavam as laterais dos bancos de madeira dando um ar ingênuo ao ambiente. A cerimônia estava marcada para as 15h, e faltava apenas meia hora para o início. Minha irmã Verônica não era dada a atrasos. Por causa de sua pontualidade, todos os convidados chegaram cedo ao local. Os bancos estavam lotados, e tinha gente se espremendo para dar lugar a quem chegou atrasado.

Um dos padrinhos ainda não havia aparecido: meu noivo, o qual era um tanto avesso à pontualidade. Quando faltava quinze minutos e nada de ele aparecer ou responder as minhas ligações, comecei a ficar irritada. Ele não apareceu nem se desculpou por sua falta… Isso se repetiu por mais de 17 anos. Refiz minha vida tentando esquecê-lo.

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Assim começa o conto As férias de Elora, escrito por Cláudia Miqueloti, para a antologia Encontros & Reencontros.


O segredo do Ribeira [Sereias: Encantos & Perigos]

A roda estava em silêncio, um clima de ten­são pairava no ar enquanto a água do rio fazia barulho ao bater no casco das canoas ali próximas.

— Todos na pequena cidade lamentavam a perda de José e podiam ouvir o canto da sereia, no conforto de suas casas, antes de dormir. Por mais que tentassem, não conse­guiam esquecer o homem que nadou para à morte…

— Baboseira. Não aguento mais essa história para boi dormir, desde pequeno, nunca vi nada, nadinha sequer nes­sas águas. Não sei como você não se cansa de contar isso, Nivaldo, e de como as crianças não se cansam de ouvir. Vou dormir que eu ganho mais — Flávio se levantou e deu as costas aos amigos de infância e às novas crianças que agora ouviam as velhas histórias de sereias do Seu Nivaldo.

Caminhou ouvindo a voz do velho já mais longe.

— Não é porque nada aconteceu até agora que nunca irá acontecer, meu filho-menino. Elas adormecem, às vezes por décadas, mas quando a sede da morte aumenta, voltam para nos levar com elas às profundezas. É assim desde a época dos “Homens do Sambaqui”. — O jovem fez um aceno com a mão, como se quisesse dizer “sem chance” e continuou caminhando pela rua de terra.

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Assim começa o conto O segredo do Ribeira, escrito por Daiane Bugatti, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


La mitad que falta [Encontros & Reencontros]

Eu sempre o via em meus sonhos. Ele não era lindo, tampouco fazia o perfil de homem cobiçado, mas me conquistou de outras maneiras. Aquele belo sorriso, o olhar brincalhão. Tocava seu alaúde como ninguém. Atencioso. Divertido. Cigano.

Lembro que nos encontrávamos às escondidas no bosque. Sentia-me como uma jovem adolescente fugindo para fazer algo errado, porém excitante. Nadávamos no rio, comíamos as frutas das árvores, ouvia-o tocar para mim. Poderia viver aqueles momentos para sempre…

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O despertador me acordou contra a vontade. O som estridente parecia um insulto à doce melodia em meus sonhos. Somente depois de desativar o alarme no celular me dei conta das lágrimas silenciosas que banhavam meu rosto.

Suspirei e passei as mãos para enxugá-las. Sempre que tinha aquele tipo de sonho, eu acordava chorando. Era angustiante despertar no mundo real depois de viver aquelas cenas, sempre tão acolhedoras, com um homem que me preenchia muito mais do que qualquer outro jamais conseguira.

Mas eu precisava levantar e ir trabalhar.

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Assim começa o conto La mitad que falta, escrito por Fabiana Prieto, para a antologia Encontros & Reencontros.


Dois disparos [Encontros & Reencontros]

Um lapso, um suspiro cotidiano no tempo perdido, dois disparos, um canarinho cantava, Martina corre, também o assaltante, cada um no próprio caminho.
Rômulo tem as mãos comprimindo o ferimento.

Uma bala, talvez desviada por algum atento anjo da guarda, apenas roçou o lóbulo da orelha direita, a outra, maldita e malcriada, perfurou o abdômen.

Martina chega ao jovem caído e grita pedindo socorro. O canarinho não retomou o canto interrompido; um assaltante, levando uns miúdos em notas, uma carteira sem cartões e um celular velho, sobe em qualquer ônibus. Ela abraça o jovem, segue nos berros — Socorro! Alguém me… nos ajude! —, desespero, ele segura a mão dela, delicadeza e cavalheirismo, nenhum resquício doloroso.

Então, quase sem querer, Martina repara na beleza do rapaz. Filha de uma negra esbelta e majestosa e de um irlandês apaixonado por cerveja, ela tem, diria um leigo, a cor de açúcar mascavo — ela tem, diria um olhar artístico, uma harmônica mistura entre terra de siena queimada, amarelo limão, oca romana, pitadas de violeta e tanto mais — e é linda, negra, estonteante, charmosa, mulher de fibra, guerreira etc. Teve até o presente momento dois namorados, um negro estudante de medicina criticado por estar na faculdade pública e um loiro metido a poliglota.

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Assim começa o conto Dois disparos, escrito por Flavio P. Oliveira, para a antologia Encontros & Reencontros.


O jantar [Sereias: Encantos & Perigos]

A caneta riscou a última palavra no caderno. Fechou-o e o guardou no bolso interno do casaco. Suas últimas memórias estavam ali, a história da sua vida morreria naquelas páginas. Suspirou enquanto olhava as paredes bem pintadas que o envolviam. Constantemente imaginava se foi nessa cela que Hitler es­creveu Mein Kampf.

Depois de anos de dedicação, não esperava acabar as­sim.

Seu olhar foi até a porta quando ouviu o trinco pesa­do se abrindo. O policial parou imponente e o olhou de cima a baixo antes de pronunciar: — Klaus Fischer.

As palavras o atingiram com estranheza. Klaus conti­nuou sentado por um momento. General Klaus Fischer pen­sou, mas aquilo não importava mais. Apoiou-se na cama e levantou. Com as mãos estendidas caminhou até o policial, que o algemou e o puxou pelo braço, fechando a porta logo atrás. Klaus olhou de relance para a porta vermelha respon­sável pelo seu confinamento nos últimos dias.

Não sentiria saudade.

O policial mantinha os dedos firmes em volta do seu braço enquanto o levava para a parte de trás da fortaleza. O sol o atingiu embaçando sua visão.

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Assim começa o conto O jantar, escrito por Graciele Ruiz, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


O canto das bonecas do diabo [Sereias: Encantos & Perigos]

Algumas pessoas dizem que você só vai real­mente valorizar a vida quando estiver cara a cara com a morte. Há quem diga ainda que, quando você é marcado por ela, não importa onde você vá ou quantas vezes você fuja, ela vai te encontrar.

As malas estavam todas no carro, um HR-V bordô, e Marco somente esperava Emily encontrar o tal biquíni da sorte. Segundo ela, coisas ruins poderiam lhe acontecer se não levasse consigo o biquíni branco com bolinhas pretas, presente dado por seu pai, antes do fatídico acidente. Aci­dente esse que eles evitavam falar a respeito. Emily nunca entendeu como o pai, um marinheiro tão experiente, pude­ra se perder no mar.

Naquela noite, Marco recebeu uma ligação de Vilson, algo parecia muito errado, ele repetia inúmeras vezes que não sairia daquela com vida e que era para mantê-la longe, entretanto, a ligação falhava, e Marco não conseguiu enten­der ao que ele se referia, parecia falar de Emily, mas não ti­nha certeza. Longe do que? O que o estava perseguindo? Por que Emily poderia estar correndo algum perigo? Eram muitas perguntas sem respostas. Após três anos da tragé­dia, finalmente eles iriam ver o mar novamente, aquele que tirou a vida do pai de Emily, aquele que ela passou a odiar.

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Assim começa o conto O canto das bonecas do diabo, escrito por J.M. Menez, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


De um passado distante [Encontros & Reencontros]

Fui criada em uma família muito rígida, onde o respeito pelos mais velhos era algo primordial. E nunca reclamei. Nunca achei aquilo errado. Algo fora do normal. Respeitar o outro não era um problema para mim. Era algo natural.

Aos doze anos, vi-me obrigada a largar meus amigos, minha escola e minha pacata vida no interior do Mato Grosso do Sul para começar tudo outra vez em Curitiba; graças ao emprego do meu pai. Aquela não era a primeira vez que nos mudávamos, e certamente não seria a última. Entretanto, não guardei lembranças da vez passada, tinha apenas quatro anos.

Confesso que, junto do medo da mudança, sentia um pouco de ansiedade. Estava prestes a conhecer um local completamente diferente de onde eu vivia até então. Cidade grande, muitas pessoas, muitos carros. Encararia uma viagem de avião, até.

Encontrei muita coisa em Curitiba, mas em grande parte das pessoas que me rodeavam, não encontrei aquilo que eu mais queria: respeito.

A primeira coisa que minha mãe fez, quando chegamos à nova cidade, foi me matricular em uma escola.

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Assim começa o conto De um passado distante, escrito por Joyce Santalme, para a antologia Encontros & Reencontros.


Sereia aprisionada [Sereias: Encantos & Perigos]

Eu nasci em uma praia do litoral brasileiro, onde os homens acharam de bom gosto co­locar, sobre os rochedos, uma estátua de sereia, feita em cimento e concreto. Pagaram a um artista para moldá-la, essa estátua, com dois metros e meio de al­tura, representando uma sereia apoiada sobre a cauda e os braços. Ganhei vida a partir da mente e do coração de inú­meras pessoas que, ao longo do tempo, concentraram a imaginação na minha figura, no mito clássico de sereias, mulheres-peixe, criaturas da água, belas e perigosas, volú­veis, com lindas vozes capazes de enfeitiçar marinheiros. Firmaram a estátua sobre os rochedos para embelezar a praia e começaram a sonhar e a pensar demais.

Então, eu nasci, mas é difícil determinar exatamente quando.

Naqueles primeiros tempos, era tudo um não-ver, um não-saber, um não-sentir, um tipo de escuridão. A princípio, eu era apenas uma fração de consciência, uma coisa indefi­nida e muito obscura, aprisionada naquele formato artifici­al, imóvel, muda, limitada. Mal conseguia me dar conta de mim mesma. Passava por longos períodos de torpor, em que apenas existia.

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Assim começa o conto Sereia aprisionada, escrito por Lethycia Dias, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


Love bug [Encontros & Reencontros]

Segurava minha credencial com força enquanto aguardava naquela fila interminável. Fazia calor, e não havia qualquer perspectiva de alívio (nenhuma sombra, repouso para as costas ou bebedouro) ou de movimento na entrada do local.

A Geekstars Convention acontecia anualmente e, como grande evento que era, atraía uma multidão incontável que se amontoava em linha para babar diante dos últimos lançamentos de games, trailers inéditos de filmes blockbusters ainda a estrear, além de toda sorte de celebridades do mundo nerd e da cultura pop que compareciam para engordar a espera e a compra dos ingressos exclusivos e mais caros.

Estava ali como membro da equipe Nezux, para participar de um torneio do jogo on-line League of the Champions. Meu papel no time era fornecer suporte, ou seja, proteger os jogadores durante as partidas cujas funções eram de linha de frente, para que conseguíssemos derrubar as torres e a base adversária. Muito simples, em teoria.

As pessoas ficavam histéricas quando se tratava de LoC, brigas desfaziam amizades, e plateias, que se amontoavam para assistir às partidas durante as convenções, ficavam abarrotadas e barulhentas. Quando jogávamos o campeonato nacional, as partidas chegavam a ser exibidas em salas de cinema. E tudo isso me deixava muito nervosa.

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Assim começa o conto Love bug, escrito por Martha Ricas, para a antologia Encontros & Reencontros.


Vena amoris [Encontros & Reencontros]

Nosso mundo é feito das coisas mais incríveis e fascinantes, mesmo que nem sempre pareça. A natureza, perfeccionista, sabe o que faz e nos fez.

Estamos longe da perfeição em termos de caráter, mas cada mínimo detalhe que compõe nossos corpos revela o quão absurdamente fascinante somos. Em especial, nossas Marcas.

Cada pessoa possui uma Marca diferente, que responde de maneiras diferentes, mas todas Marcas têm algo em comum: elas te conectam à sua Alma Gêmea. É algo mágico, e até hoje a ciência não conseguiu explicar. Dependendo da intensidade dos sentimentos, é possível sentir nitidamente o que sua Alma Gêmea está sentindo, mesmo que ela esteja literalmente do outro lado da Terra.

As Marcas possuem diferentes formatos e, por isso, ganham nomes para cada tipo. As Marcas Temporais, por exemplo, são lindos e intrincados relógios cuja contagem marca regressivamente quanto tempo falta para você e sua Alma Gêmea se encontrarem, ou pode, também, começar depois que você a encontra. As Marcas Caligráficas são o nome e o sobrenome da Alma Gêmea ou podem indicar locais e datas escritos em algum lugar do corpo. Algumas pessoas possuem uma Marca Visual, como meu melhor amigo, Henry. Ele vê tudo cinza, e é previsto que as cores surgirão somente quando ele finalmente encontrar sua Alma Gêmea.

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Assim começa o conto Vena amoris, escrito por Mayra Pamplona, para a antologia Encontros & Reencontros.


Zoe & Anthony [Encontros & Reencontros]

Sinto meus joelhos perderem a força, e meu corpo tombar para a frente. As lágrimas antes contidas agora rolam soltas pela face. É um choro tão profundo, tão intenso, que sinto como se minha própria alma chorasse minha dor — Anthony! — grito quando a porta se fecha. Mas ele não hesita, ele não volta.
Anthony se foi, e com ele, meu coração.

Atualmente

Um raio de luz me atinge em cheio no rosto me despertando. Eu me cubro com o lençol a fim de barrar a luz que insiste em invadir o meu quarto. Aos poucos, vou me acostumando com a claridade e sinto que estou prestes a dormir novamente quando ouço uma voz gritar meu nome ao longe.

— Zoe!

Imediatamente faço uma tentativa frustrada de me virar para a parede, já sabendo o que vem a seguir. Pena que meu reflexo não é tão rápido quanto meu raciocínio. Quando percebo, sou atingida em cheio.

— Droga, Ben, isso dói — digo massageando o lado da cabeça em que o travesseiro arremessado me acertou.

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Assim começa o conto Zoe & Anthony, escrito por Natasha Coutinho, para a antologia Encontros & Reencontros.


O segredo do astro [Sereias: Encantos & Perigos]

Escutei uma frase naquela manhã, em agos­to, se minha percepção de sereia não me deixa falhar. Sobre uma família inteira ter contraído uma doença desconhecida desde a última lua no­va, e todos queriam saber o que (realmente) havia aconteci­do. Mas eram coisas que não queria parar para descobrir. Pouco me importava quem havia morrido ou quem con­tinuava vivendo, precisava me preocupar com a minha pró­pria sobrevivência, ainda preciso. Isso já é carga demais pa­ra mim, e já basta. Não que eu seja um monstro, porém, al­go precisava ser mais importante que aquilo para chamar minha atenção.

Não que eu seja um monstro… Meu lago é pequeno, e não tem muitos lugares para se esconder. Só consigo nadar livremente pela noite, quando torço para que nenhum bê­bado apareça e comece a gritar que está vendo uma sereia. Sei que, no fundo, não tenho motivos para me preocupar, quem acredita em bêbados? Mas a sorte é que minha pele beira ao transparente, e não chamo muita atenção na escu­ridão… Uma cauda com tronco e cabeça humana, num lago de água doce, não chamaria a atenção de ninguém mesmo, ou chamaria?

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Assim começa o conto O segredo do astro, escrito por Raíssa Arenhardt, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.

 


O que importa é lembrar [Encontros & Reencontros]

O bar cheirava a cigarro. Isso já seria razão suficiente para que eu saísse o mais rápido possível dali, mas não foi o que eu fiz. Apesar de condenar a inconveniência do sujeito de cara amarrada provavelmente tragando um câncer para dentro de seus pulmões e sentado na mesa bem ao meu lado, eu estava disposto a aproveitar a noite, além disso, estávamos na calçada do mais novo point da capital mineira, não havia nenhuma restrição ao fumante do lado de fora.

Belo Horizonte sempre foi repleta de boas opções para quem curte sair à noite, e aquele lugar não era uma exceção. O local estava cheio, especialmente de jovens descompromissados em busca de diversão e, quem sabe, uma boa companhia até o fim daquela noite. Definitivamente, eu não me encaixava no perfil daquele público, embora algumas pessoas parecessem já ter dançado ao som das músicas da década de noventa, fazendo com que eu me sentisse mais à vontade por estar ali. Entretanto, a verdade é que eu estava perdido, com o pensamento longe, em qualquer lugar que fosse capaz de responder à pergunta que volta e meia martelava em minha cabeça: o que eu estou fazendo da minha vida?

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Assim começa o conto O que importa é lembrar, escrito por Ricardo de Jesus, para a antologia Encontros & Reencontros.


Sorriso nas profundezas [Sereias: Encantos & Perigos]

O cômodo era escuridão. Estava engolido pe­las trevas. Pedro abriu os olhos e tomou fôlego, lembrava-se pouco do que lhe havia acontecido e sentia o corpo pesado, como depois de um ár­duo dia de trabalho braçal. Uma dor similar a uma grande pressão invadia sua cabeça pelas têmporas e espalhava-se pelo resto de seu corpo. Olhou para os lados, tentou identi­ficar o lugar onde estava, mas não obteve sucesso. Sentou-se, sentindo as roupas molhadas, deixou os olhos se acostu­marem com o ambiente escuro.

— Pense. Pense! — disse para si mesmo, pondo-se de pé. — O que aconteceu com você? Onde você está?

— Você está onde desejava — respondeu uma voz.

— Quem está aí? Apareça! — Pedro tentava disfarçar o medo em sua voz, mas não conseguia, o fato era que estava em um quarto escuro, molhado, e não fazia a menor ideia de como havia parado ali.

— Calma rapaz. Não é comigo que você precisa se preocupar. Posso te garantir — respondeu um velho que se aproximava de Pedro, carregando uma grossa e gasta vela acessa.

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Assim começa o conto Sorriso nas profundezas, escrito por Robson Pedroso, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.


O Capitão, a Costureira e o Mensageiro [Encontros & Reencontros]

Ele era um capitão do exército, ela, uma costureira, mas não do exército. Ele disparava projéteis por armas, dava ordens, recebia ordens, vestia uniformes e derrotava inimigos. Ela costurava roupas com agulhas, fazia pedidos, atendia pedidos, consertava uniformes e montava vestidos. Eles se amavam.

O Capitão também amava sua carreira militar, ainda que de uma maneira diferente da que amava a Costureira. Ela não compreendia totalmente esse amor, pois acreditava que o sentimento dele por seu trabalho era maior que qualquer outro, e lhe parecia injusto que fosse assim, pois ela entendia que seu amor por ele era maior do que o seu amor por qualquer pessoa ou coisa, incluindo a costura.

Nesses momentos em que ela pensava que era injusto o modo como o Capitão amava e o que ele amava, pensava que era injusto que se sentisse assim, e se envergonhava do seu sentimento, e nada dizia, pois com todo seu amor, nunca queria vê-lo triste, preocupado ou envergonhado.

Não queria parecer ou ser egoísta, enxergando que isso tornaria seu amor menos verdadeiro e profundo. Quando ele lhe trouxe a notícia da partida, dividido entre pesar e orgulho, ela pensou que talvez fosse melhor se tivesse sido mais egoísta e clara sobre seus sentimentos em relação à carreira militar dele. Talvez isso o tivesse feito pensar duas vezes e o impedisse de partir.

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Assim começa o conto O Capitão, a Costureira e o Mensageiro, escrito por Rodrigo Ortiz Vinholo, para a antologia Encontros & Reencontros.


A sombra do lago [Sereias: Encantos & Perigos]

Durante gerações, os espíritos de nossos an­tepassados podem se perpetuar sobre um determinado solo, causando desde inofen­sivos ruídos até alarmantes consequências.

Em uma isolada propriedade em estilo clássico, ro­deada por arvoredos e animais que por ali vivem, mortes sem solução vêm ocorrendo há decênios, até mesmo sécu­los, de acordo com documentos de caráter mais obscuro. Nunca houve uma explicação lógica para o que, por lá, a­contece. Genealogias de investigadores tentaram desvendar o enigma que ronda aquele casarão, mas apenas encon­traram uma atmosfera mórbida, por exemplo, um cemité­rio amaldiçoado e um mar de escuridão, como respostas para suas perguntas, além do lago situado aos fundos do imóvel, cuja profundidade final aparentava não existir. Al­guns deles, inclusive, nunca mais retornaram.

O vento que soprava naquela mansão recordava o há­lito de um Deus do Olimpo. Os bosques em volta demons­travam querer esconder algum segredo emergido dos con­fins do planeta, e o olhar da atual moradora, isentada de qualquer suspeita quanto aos óbitos, parecia exalar um quê de mistério. Enrique era um detetive em busca de prestígio além do limiar de sua própria cidade.

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Assim começa o conto A sombra do lago, escrito por Vitor Henrique, para a antologia Sereias: Encantos & Perigos.