A Delirium abraça e coloca coração e crença na qualidade da arte literária, especialmente aquela feita em língua portuguesa, nosso lindo idioma. Nesta página, abrimos espaços para mini biografias e um pedacinho da arte (publicada de modo delirante) dos nossos autores.

Que tal conhecê-los? Clique nas imagens para mais detalhes de cada autor.

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Quero voltar [Encontros & Reencontros]

Aquela senhora, coitada, estava ficando caduca, a pobrezinha. Verdade seja dita, já estava mesmo na hora. Afinal, quantos anos tinha? Cem? Duzentos? Vai saber, muitos. É, talvez estivesse mesmo na hora, ainda assim, pobrezinha… Ela teimava porque teimava: — Quero voltar. Não era um pedido ilegítimo, claro. Alguns parentes até o encararam com otimismo: vai ver está se aprontando para a morte (já estava em dívida com o prazo). Afinal, se queria mesmo voltar, só poderia ser para a antiga casa da sua família, onde passou a infância. Mas a forma como insistia. Falava dia e noite: — Quero voltar. Quero voltar. Enchia os tímpanos alheios de tanto querer voltar. E o fazia enquanto se devotava a acariciar seu colar de safira — uma joia da família.

Bem, seu neto mais novo, que devia ter por volta dos dez, observava: — Acho que a vovó está dizendo: quero amar. Ninguém o levava a sério, afinal, eram vinte contra meio… meio, porque criança não valia como inteiro. De qualquer modo, por via das dúvidas, chamaram o primo da nora de um dos filhos — rapaz prestes a se formar em fonoaudiologia — para dar o seu parecer: infelizmente, ele inventou de propor uma terceira hipótese — Quero voar — e seu prestígio perante o resto da família acabou.

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Assim começa o conto Quero voltar, escrito por Brenda Bernsau, para a antologia Encontros & Reencontros.


Lar [Encontros & Reencontros]

Fuga. Esconderijo. Segurança. Se eu precisasse defini-lo em algumas poucas palavras, certamente essas seriam as escolhidas, com todo o significado existente em cada uma delas.

Ele sempre foi o tipo de pessoa que, mesmo tão jovem, parecia capaz de me proteger da ruína do mundo, quase como se fosse meu escudo, minha muralha, meu altar. É claro que, lá atrás, eu não tinha maturidade suficiente para entender a razão de sempre voltar para onde ele me esperava, mas hoje compreendo muito bem. Quando tudo dava errado, dentro ou fora de mim, ele sabia exatamente como me confortar e me fazer rir.

Na época, meu palpite a respeito do motivo pelo qual funcionávamos tão bem juntos consistia em uma profunda crença sobre sermos almas gêmeas. Hoje, acho isso uma grande besteira, por óbvio, mas admito ter rememorado de imediato tal convicção quando finalmente voltei a pensar nele.

Vinte anos depois.

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— Seu primeiro dia de aula também foi ruim? — a primeira pergunta que Thiago me dirigiu, quando tínhamos apenas sete anos, era tão despretensiosa, que eu jamais poderia ter imaginado a profundidade do sentimento que desenvolveríamos um pelo outro a partir dela.

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Assim começa o conto Lar, escrito por Camila Pelegrini, para a antologia Encontros & Reencontros.


As férias de Elora [Encontros & Reencontros]

Lembro que era um dia de sol magnífico do tipo que dá vontade de correr pelos campos sentindo o perfume das flores, no entanto fiquei enfurnada em uma pequena igreja com todos os ventiladores de teto ligados devido ao calor abafado. Usava um vestido longo de manga única em tom pastel decorado com minúsculas pedrinhas de strass na cintura. Foi uma pequena fortuna, mas valeu todo o investimento.

As camélias, flores preferidas da noiva, enfeitavam as laterais dos bancos de madeira dando um ar ingênuo ao ambiente. A cerimônia estava marcada para as 15h, e faltava apenas meia hora para o início. Minha irmã Verônica não era dada a atrasos. Por causa de sua pontualidade, todos os convidados chegaram cedo ao local. Os bancos estavam lotados, e tinha gente se espremendo para dar lugar a quem chegou atrasado.

Um dos padrinhos ainda não havia aparecido: meu noivo, o qual era um tanto avesso à pontualidade. Quando faltava quinze minutos e nada de ele aparecer ou responder as minhas ligações, comecei a ficar irritada. Ele não apareceu nem se desculpou por sua falta… Isso se repetiu por mais de 17 anos. Refiz minha vida tentando esquecê-lo.

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Assim começa o conto As férias de Elora, escrito por Cláudia Miqueloti, para a antologia Encontros & Reencontros.


La mitad que falta [Encontros & Reencontros]

Eu sempre o via em meus sonhos. Ele não era lindo, tampouco fazia o perfil de homem cobiçado, mas me conquistou de outras maneiras. Aquele belo sorriso, o olhar brincalhão. Tocava seu alaúde como ninguém. Atencioso. Divertido. Cigano.

Lembro que nos encontrávamos às escondidas no bosque. Sentia-me como uma jovem adolescente fugindo para fazer algo errado, porém excitante. Nadávamos no rio, comíamos as frutas das árvores, ouvia-o tocar para mim. Poderia viver aqueles momentos para sempre…

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O despertador me acordou contra a vontade. O som estridente parecia um insulto à doce melodia em meus sonhos. Somente depois de desativar o alarme no celular me dei conta das lágrimas silenciosas que banhavam meu rosto.

Suspirei e passei as mãos para enxugá-las. Sempre que tinha aquele tipo de sonho, eu acordava chorando. Era angustiante despertar no mundo real depois de viver aquelas cenas, sempre tão acolhedoras, com um homem que me preenchia muito mais do que qualquer outro jamais conseguira.

Mas eu precisava levantar e ir trabalhar.

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Assim começa o conto La mitad que falta, escrito por Fabiana Prieto, para a antologia Encontros & Reencontros.


Dois disparos [Encontros & Reencontros]

Um lapso, um suspiro cotidiano no tempo perdido, dois disparos, um canarinho cantava, Martina corre, também o assaltante, cada um no próprio caminho.
Rômulo tem as mãos comprimindo o ferimento.

Uma bala, talvez desviada por algum atento anjo da guarda, apenas roçou o lóbulo da orelha direita, a outra, maldita e malcriada, perfurou o abdômen.

Martina chega ao jovem caído e grita pedindo socorro. O canarinho não retomou o canto interrompido; um assaltante, levando uns miúdos em notas, uma carteira sem cartões e um celular velho, sobe em qualquer ônibus. Ela abraça o jovem, segue nos berros — Socorro! Alguém me… nos ajude! —, desespero, ele segura a mão dela, delicadeza e cavalheirismo, nenhum resquício doloroso.

Então, quase sem querer, Martina repara na beleza do rapaz. Filha de uma negra esbelta e majestosa e de um irlandês apaixonado por cerveja, ela tem, diria um leigo, a cor de açúcar mascavo — ela tem, diria um olhar artístico, uma harmônica mistura entre terra de siena queimada, amarelo limão, oca romana, pitadas de violeta e tanto mais — e é linda, negra, estonteante, charmosa, mulher de fibra, guerreira etc. Teve até o presente momento dois namorados, um negro estudante de medicina criticado por estar na faculdade pública e um loiro metido a poliglota.

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Assim começa o conto Dois disparos, escrito por Flavio P. Oliveira, para a antologia Encontros & Reencontros.


De um passado distante [Encontros & Reencontros]

Fui criada em uma família muito rígida, onde o respeito pelos mais velhos era algo primordial. E nunca reclamei. Nunca achei aquilo errado. Algo fora do normal. Respeitar o outro não era um problema para mim. Era algo natural.

Aos doze anos, vi-me obrigada a largar meus amigos, minha escola e minha pacata vida no interior do Mato Grosso do Sul para começar tudo outra vez em Curitiba; graças ao emprego do meu pai. Aquela não era a primeira vez que nos mudávamos, e certamente não seria a última. Entretanto, não guardei lembranças da vez passada, tinha apenas quatro anos.

Confesso que, junto do medo da mudança, sentia um pouco de ansiedade. Estava prestes a conhecer um local completamente diferente de onde eu vivia até então. Cidade grande, muitas pessoas, muitos carros. Encararia uma viagem de avião, até.

Encontrei muita coisa em Curitiba, mas em grande parte das pessoas que me rodeavam, não encontrei aquilo que eu mais queria: respeito.

A primeira coisa que minha mãe fez, quando chegamos à nova cidade, foi me matricular em uma escola.

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Assim começa o conto De um passado distante, escrito por Joyce Santalme, para a antologia Encontros & Reencontros.


Love bug [Encontros & Reencontros]

Segurava minha credencial com força enquanto aguardava naquela fila interminável. Fazia calor, e não havia qualquer perspectiva de alívio (nenhuma sombra, repouso para as costas ou bebedouro) ou de movimento na entrada do local.

A Geekstars Convention acontecia anualmente e, como grande evento que era, atraía uma multidão incontável que se amontoava em linha para babar diante dos últimos lançamentos de games, trailers inéditos de filmes blockbusters ainda a estrear, além de toda sorte de celebridades do mundo nerd e da cultura pop que compareciam para engordar a espera e a compra dos ingressos exclusivos e mais caros.

Estava ali como membro da equipe Nezux, para participar de um torneio do jogo on-line League of the Champions. Meu papel no time era fornecer suporte, ou seja, proteger os jogadores durante as partidas cujas funções eram de linha de frente, para que conseguíssemos derrubar as torres e a base adversária. Muito simples, em teoria.

As pessoas ficavam histéricas quando se tratava de LoC, brigas desfaziam amizades, e plateias, que se amontoavam para assistir às partidas durante as convenções, ficavam abarrotadas e barulhentas. Quando jogávamos o campeonato nacional, as partidas chegavam a ser exibidas em salas de cinema. E tudo isso me deixava muito nervosa.

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Assim começa o conto Love bug, escrito por Martha Ricas, para a antologia Encontros & Reencontros.


Vena amoris [Encontros & Reencontros]

Nosso mundo é feito das coisas mais incríveis e fascinantes, mesmo que nem sempre pareça. A natureza, perfeccionista, sabe o que faz e nos fez.

Estamos longe da perfeição em termos de caráter, mas cada mínimo detalhe que compõe nossos corpos revela o quão absurdamente fascinante somos. Em especial, nossas Marcas.

Cada pessoa possui uma Marca diferente, que responde de maneiras diferentes, mas todas Marcas têm algo em comum: elas te conectam à sua Alma Gêmea. É algo mágico, e até hoje a ciência não conseguiu explicar. Dependendo da intensidade dos sentimentos, é possível sentir nitidamente o que sua Alma Gêmea está sentindo, mesmo que ela esteja literalmente do outro lado da Terra.

As Marcas possuem diferentes formatos e, por isso, ganham nomes para cada tipo. As Marcas Temporais, por exemplo, são lindos e intrincados relógios cuja contagem marca regressivamente quanto tempo falta para você e sua Alma Gêmea se encontrarem, ou pode, também, começar depois que você a encontra. As Marcas Caligráficas são o nome e o sobrenome da Alma Gêmea ou podem indicar locais e datas escritos em algum lugar do corpo. Algumas pessoas possuem uma Marca Visual, como meu melhor amigo, Henry. Ele vê tudo cinza, e é previsto que as cores surgirão somente quando ele finalmente encontrar sua Alma Gêmea.

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Assim começa o conto Vena amoris, escrito por Mayra Pamplona, para a antologia Encontros & Reencontros.


Zoe & Anthony [Encontros & Reencontros]

Sinto meus joelhos perderem a força, e meu corpo tombar para a frente. As lágrimas antes contidas agora rolam soltas pela face. É um choro tão profundo, tão intenso, que sinto como se minha própria alma chorasse minha dor — Anthony! — grito quando a porta se fecha. Mas ele não hesita, ele não volta.
Anthony se foi, e com ele, meu coração.

Atualmente

Um raio de luz me atinge em cheio no rosto me despertando. Eu me cubro com o lençol a fim de barrar a luz que insiste em invadir o meu quarto. Aos poucos, vou me acostumando com a claridade e sinto que estou prestes a dormir novamente quando ouço uma voz gritar meu nome ao longe.

— Zoe!

Imediatamente faço uma tentativa frustrada de me virar para a parede, já sabendo o que vem a seguir. Pena que meu reflexo não é tão rápido quanto meu raciocínio. Quando percebo, sou atingida em cheio.

— Droga, Ben, isso dói — digo massageando o lado da cabeça em que o travesseiro arremessado me acertou.

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Assim começa o conto Zoe & Anthony, escrito por Natasha Coutinho, para a antologia Encontros & Reencontros.

 


O que importa é lembrar [Encontros & Reencontros]

O bar cheirava a cigarro. Isso já seria razão suficiente para que eu saísse o mais rápido possível dali, mas não foi o que eu fiz. Apesar de condenar a inconveniência do sujeito de cara amarrada provavelmente tragando um câncer para dentro de seus pulmões e sentado na mesa bem ao meu lado, eu estava disposto a aproveitar a noite, além disso, estávamos na calçada do mais novo point da capital mineira, não havia nenhuma restrição ao fumante do lado de fora.

Belo Horizonte sempre foi repleta de boas opções para quem curte sair à noite, e aquele lugar não era uma exceção. O local estava cheio, especialmente de jovens descompromissados em busca de diversão e, quem sabe, uma boa companhia até o fim daquela noite. Definitivamente, eu não me encaixava no perfil daquele público, embora algumas pessoas parecessem já ter dançado ao som das músicas da década de noventa, fazendo com que eu me sentisse mais à vontade por estar ali. Entretanto, a verdade é que eu estava perdido, com o pensamento longe, em qualquer lugar que fosse capaz de responder à pergunta que volta e meia martelava em minha cabeça: o que eu estou fazendo da minha vida?

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Assim começa o conto O que importa é lembrar, escrito por Ricardo de Jesus, para a antologia Encontros & Reencontros.


O Capitão, a Costureira e o Mensageiro [Encontros & Reencontros]

Ele era um capitão do exército, ela, uma costureira, mas não do exército. Ele disparava projéteis por armas, dava ordens, recebia ordens, vestia uniformes e derrotava inimigos. Ela costurava roupas com agulhas, fazia pedidos, atendia pedidos, consertava uniformes e montava vestidos. Eles se amavam.

O Capitão também amava sua carreira militar, ainda que de uma maneira diferente da que amava a Costureira. Ela não compreendia totalmente esse amor, pois acreditava que o sentimento dele por seu trabalho era maior que qualquer outro, e lhe parecia injusto que fosse assim, pois ela entendia que seu amor por ele era maior do que o seu amor por qualquer pessoa ou coisa, incluindo a costura.

Nesses momentos em que ela pensava que era injusto o modo como o Capitão amava e o que ele amava, pensava que era injusto que se sentisse assim, e se envergonhava do seu sentimento, e nada dizia, pois com todo seu amor, nunca queria vê-lo triste, preocupado ou envergonhado.

Não queria parecer ou ser egoísta, enxergando que isso tornaria seu amor menos verdadeiro e profundo. Quando ele lhe trouxe a notícia da partida, dividido entre pesar e orgulho, ela pensou que talvez fosse melhor se tivesse sido mais egoísta e clara sobre seus sentimentos em relação à carreira militar dele. Talvez isso o tivesse feito pensar duas vezes e o impedisse de partir.

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Assim começa o conto O Capitão, a Costureira e o Mensageiro, escrito por Rodrigo Ortiz Vinholo, para a antologia Encontros & Reencontros.